Na próxima quarta-feira (01), entregadores de aplicativos de todo o país realizam a primeira greve da categoria por melhores condições de trabalho e remuneração pelos aplicativos de entrega. A mobilização, chamada “Breque dos apps”, tem o objetivo de denunciar a falta de direitos trabalhistas e de suporte por parte das empresas durante a pandemia.

Os entregadores por aplicativo reivindicam transparência sobre as formas de pagamento, aumento do valor por quilômetro e dos valores mínimos para cada entrega, além do fim dos sistemas de pontuação, bloqueios e exclusões indevidas. A categoria também exige seguro de vida, de acidentes e um vale para a compra de máscaras, luvas, álcool em gel e outros equipamentos de proteção. 

“Não haverá manifestação nas ruas, mas vamos dialogar com quem quer trabalhar neste dia, especialmente nos locais de maior movimentação de entregadores da Uber, Ifood, Rappi, Lalamove e Loggi, para que entendam que a luta é de todos”, afirma Mineiro, um dos organizadores da greve no Brasil, em entrevista à Central Única dos Trabalhadores (CUT). De acordo com Mineiro, no mesmo dia da greve no Brasil, haverá paralisação em mais cinco países: Argentina, Austrália, China, México e Inglaterra. Os organizadores estimam que 98% dos entregadores de aplicativos devem aderir à greve, que também precisará contar com o apoio de clientes. 

A pesquisa “Condições de trabalho de entregadores via plataforma digital durante a COVID-19”, realizada pela Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir Trabalho) da Unicamp, revelou que os entregadores por aplicativo estão trabalhando mais horas e ganhando menos, desde o início da pandemia do novo coronavírus.

A pesquisa constatou uma piora significativa nas condições de trabalho, aumento da jornada de trabalho e queda na remuneração. O estudo também revela que a grande maioria dos entrevistados adota uma ou mais medidas de proteção contra a covid-19 na execução de seu trabalho, enquanto as medidas adotadas pelas empresas concentram-se apenas na prestação de orientações.

Para o sociólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Ruy Braga, o aumento do desemprego nos últimos anos colocou milhões de trabalhadores na informalidade, o que leva à superexploração desses indivíduos, sem qualquer direito: “A informalidade remunera, em média, a metade daquilo que pagava o emprego formal, o que obriga os trabalhadores a jornadas muito longas, reflexo da desregulação do tempo do trabalho, comprime a renda e deteriora as condições de reprodução desses setores. Eles saem de grandes escritórios, empresas, fábricas e acabam indo para a rua. São obrigados a abrir um pequeno negócio, a vender coisas nas ruas, estão muito mais sensíveis e expostos, por exemplo, à violência social, ao roubo, ou à violência e à repressão policial, no caso do trabalhador ambulante” analisa em entrevista à Rede Brasil Atual.

A taxa de informalidade no mercado de trabalho no Brasil chegou a atingir 41,4% da população ocupada em agosto de 2019. Os dados do trimestre que vai de março a maio deste ano, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (Pnad Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados nesta terça´feira (30), revelam que a informalidade é a realidade de 37,6% da população ocupada, o que representa 32,3 milhões de trabalhadores informais. A pesquisa também evidencia um recuo generalizado da taxa de ocupação. O número de empregados com Carteira de Trabalho assinada no setor privado, que não inclui trabalhadores domésticos, recuou para 31,1 milhões, o menor nível da série histórica. Além disso, o número de empregados sem carteira assinada no setor privado, recuou 20,8% em relação ao trimestre anterior. Já o número de trabalhadores “por conta própria” é de 22,4 milhões de pessoas.

Braga defende a necessidade uma coalizão entre organizações de trabalhadores e movimentos sociais com o poder público para que se possa enfrentar a situação de crescente precarização do trabalho no Brasil. “São pessoas que estão no desemprego há muito tempo, ou no subemprego, e dependem desse tipo de trabalho. Então, é preciso uma coalizão capaz de enfrentar essas grandes empresas multinacionais monopolistas. Isso evidentemente incorpora o movimento de organização dos trabalhadores. Mas exige a formação de coalizões, com o poder público e com os movimentos sociais urbanos”, afirma.